A EXCLUSÃO DOS HONESTOS - Artigo de Salvador Bonomo

Data da postagem: 16/09/2013

 


Salvo melhor juízo, entendemos que, no Brasil, até bem recentemente, as pessoas honestas eram, em regra, admiradas, elogiadas, enaltecidas, homenageadas, porque tidas como importantíssimos referenciais (exemplos) para o conjunto da respectiva comunidade ou sociedade. Entretanto, percebo que, na atualidade, elas estão sendo, propositalmente, esquecidas, isoladas, marginalizadas, enfim, excluídas, sobretudo dos centros das decisões em geral.


 


Por que vem, sistematicamente, ocorrendo tal fenômeno? Estaria, por acaso, o mal (a desonestidade) vencendo o bem (a honestidade)? A meu modesto ver e sentir, tal menosprezo às pessoas honestas resulta do fato de que elas (as pessoas honestas) representam obstáculos intransponíveis àquelas, cujas pretensões ocultam caráter ímprobo ou desvio de conduta, mais precisamente às que almejam a prática de atos aéticos, imorais, ilícitos, porque a essas só interessa cumprir, rigorosamente, a famigerada “Lei de Gérson”, que é a que regula as condutas dos que gostam de levar vantagem em tudo.


 


Aliás, ouso afirmar que a referida e famigerada “Lei de Gérson” representa a síntese da mentalidade patrimonialista, que é herança que nos legaram os nossos colonizadores, e que consiste na fusão, na confusão, na mistura dos interesses públicos com os interesses privados, de cujo processo resultam, sempre, prejuízos aos interesses públicos. E, como exemplos corriqueiros e gritantes, relaciono os que seguem: o clientelismo, o fisiologismo, o nepotismo, a corrupção. 


 


Todas as pessoas honestas, e, creio, são a maioria esmagadora da população brasileira, que, diuturnamente, presenciam a prática de atos aéticos, imorais e ilícitos, que, com frequência, ocorrem no nosso meio, devem concluir que o quadro de ilicitudes ora vigente  “está de vaca não reconhecer a própria cria” ou, então, “está uma zorra”, como costuma dizer o vulgo, em situações semelhantes à ora retratada.   


 


Aliás, tenho a impressão de que, ao invés de, ao longo do tempo, laborarmos no sentido de escoimarmos da nossa conduta social aqueles vícios de natureza patrimonialista, que herdamos dos nossos colonizadores, na realidade estamos a retroceder, pois não atentamos, como deveríamos, para a advertência que, há um século, nos fez o ilustre baiano, Rui Barbosa (1849-1923), vazada nos seguintes, incisivos e atuais termos:


 


“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto".


 


Parece-me que o povo já cansou de mirar-se em espelhos rotos, quebrados, que, por óbvio, refletem imagens defeituosas, deformadas. Entendo que, para começarmos a transformar o triste quadro moral acima retratado, é preciso que sobretudos as autoridades dos três níveis de poder façam das suas condutas uma espécie de espelho límpido, que, por óbvio, refletirá imagens perfeitas, no que, com certeza, serão imitadas pelos membros da respectiva Sociedade.


 


A título de conclusão, sustentamos, enfaticamente, que não basta sermos honestos e dizermos que somos honestos; é preciso, ainda, combatermos a desonestidade, sob pena de sermos coniventes com as condutas errôneas (aéticas, imorais e ilícitas) que, com frequência, ocorrem entorno de nós.


 


Salvador Bonomo


Salvador Bonomo.


Ex Deputado Estadual e Promotor de Justiça aposentado.


Vitória, ES, 13.09.2013.